terça-feira, 26 de dezembro de 2017

IACS se rende ao bom-humor de Alex Escobar

Por Luan Scanferla

O convidado mais famoso da última edição do Controversas foi o apresentador, comentarista e narrador esportivo Alex Escobar, da TV Globo. Mais aguardado do que o bolo de chocolate do coffee break, o jornalista pôde contar um pouco de sua carreira (antes e depois de se tornar jornalista) e proporcionar muitas risadas e ótimas histórias aos presentes na sala Interartes do IACS, no primeiro dia do evento (6/12). 

Boas histórias e muitas risadas marcaram o bate bapo com Alex Escobar (Foto:Juliana Martins) 

Quem nunca o tinha visto de perto, foi surpreendido pelo metro e (quase) noventa do apresentador. Também causou espanto entre muitos estudantes a informação de que Escobar começou sua vida profissional como comissário de bordo, aos vinte e poucos anos (ele brincou dizendo que na época ainda tinha cabelo). Somente no ano 2000 ele começou a trabalhar no rádio, graças ao incentivo de um amigo ficou admirado com a qualidade das locuções que Escobar fazia durante os vôos de que participava.

Trajetória

Ao falar de si, Alex Escobar destacou sua versatilidade e capacidade de improviso no ar, características adquiridas na época de comissário e das experiências no rádio: “Eu não escrevo meus próprios textos do Globo Esporte, mas estou sempre improvisando com o texto dos outros. Quando estou no ar, tento ser o mais natural possível, como se eu estivesse aqui conversando com vocês”.

Em uma resposta sobre a declaração aberta de seu time de coração e o uso das redes sociais para a exposição de posições ideológicas, Escobar explicou: “Sempre que vou postar algo em uma rede social, eu me faço a seguinte pergunta: ‘será que eu falaria isso no ar?’. Porque, às vezes, um comentário fora de hora causa um desgaste muito grande da sua imagem.”

Antes de chegar à televisão, o fanático torcedor do América, criado em Bangu, teve a proeza de ser o primeiro apresentador do programa Rock Bola, transmitido pela Rádio Cidade. Por ser um cara apaixonado por futebol e torcer para um clube querido pelos cariocas, ele foi considerado a pessoa perfeita para mediar o acalorado debate do programa, que contava com uma boa dose de clubismo dos seus integrantes. Após essa primeira experiência, foi contratado em 2003 pelo canal por assinatura SporTV e deu início à sua trajetória como comentarista esportivo.

Após rodar por alguns programas do canal, ele chegou no final de 2010 ao Globo Esporte e se tornou  presença marcante no almoço dos cariocas, com seu jeitão “do povo”. No quadro “Cafezinho com Escobar”, ele vai às ruas debater com as pessoas, sempre com um bom copo de café na mão. No entanto, se engana quem acha que Escobar foi pioneiro nesse modelo de apresentar o programa. Ele contou que a inspiração veio de um colega de emissora: “Eu surfei essa onda do (Thiago) Leifert no Globo Esporte.”

Perspectivas de Mercado

A conversa, que teve a mediação dos estudantes de Jornalismo Matheus Maciel e Raphaela Fernandes, abordou as perspectivas do mercado de jornalismo esportivo para quem está prestes a se formar. Para a alegria dos presentes, Escobar mostrou ter uma visão, de certa forma, otimista em relação às possibilidades no futuro. Para ele, o momento é ruim economicamente para quase todas as áreas profissionais, mas há espaço para quem se destaca: “O mercado é bom para quem é bom”, afirmou.

Mudança de Estrutura da Globo

Escobar também comentou algumas modificações relativamente recentes na cobertura de esportes do Grupo Globo. “O esporte na Globo sempre foi vinculado ao jornalismo da própria Globo. Agora isso é diferente, a Globo, o SporTV e o Globoesporte.com estão todos juntos.” Para aqueles que sonham um dia poder trabalhar na empresa, ele deu uma declaração animadora: “A Globo também tem carências profissionais.”


Quando perguntado sobre a aproximação do jornalismo esportivo com o gênero entretenimento, ele deu detalhes sobre as diretrizes da emissora: “O foco da Globo no esporte é o entretenimento, mas não necessariamente com humor. O objetivo principal é prender a atenção do espectador.” Em relação ao Globo Esporte, o apresentador completou: “O Globo Esporte segue fazendo jornalismo, mas de uma maneira diferente. Com uma linguagem e roupagem que aproxime as pessoas do futebol, mas não só pelo futebol, e sim pela temática das reportagens.”

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Flávia Oliveira: uma aula sobre a responsabilidade social do jornalista no Controversas

Por Igor Oliveira Simões 

Uma grande aula de jornalismo, mas também de representatividade, empoderamento e responsabilidade social. Essa foi a tônica da penúltima mesa do XIII Controversas, que trouxe de volta ao casarão rosa do IACS a jornalista Flávia Oliveira, formada em Comunicação Social pela UFF em 1992, para debater com os futuros colegas de profissão o papel social do jornalista.
 
Pela primeira vez o tradicional evento de jornalismo do IACS teve a mediação dos alunos, e os temas abordados durante a mesa foram tão diversos quanto o currículo de Flávia Oliveira. Em pauta, a importância cultural e econômica do samba, a polêmica criação da editoria de guerra do jornal O Extra, os desafios que o jornalista enfrenta na cobertura de economia, racismo, machismo e falta de representatividade na profissão e na escolha das fontes.

Flávia Oliveira foi um dos destaques do 2º dia do Controversas (Foto: Julliana Martins)

Precarização nas relações de trabalho

Desde que foi demitida do jornal O Globo, em 2015, a jornalista se divide entre as funções de colunista no mesmo periódico, comentarista de economia no “Estúdio i”, da Globonews, e no “CBN Rio”, na rádio CBN. Além disso, Flávia ainda encontra tempo para apresentar a temporada de 2017 do programa “TED: Compartilhando ideias”, no Canal Futura, e é membro dos conselhos consultivos da Anistia Internacional Brasil, e da ONG Uma Gota no Oceano, do Instituto Coca-Cola Brasil. Também integra a comissão de matriz africana do Museu do Amanhã, no Rio.

Se por um lado a versatilidade faz com que Flávia seja uma profissional admirada no mercado, por outro expõe uma característica dos novos tempos para os jornalistas: a precarização das relações de trabalho. A jornalista lançou seu olhar adiante para dizer que o jornalismo tem futuro, mas que o profissional da área será cada vez mais obrigado a ser “multitarefas” para se manter empregado.

Para Flávia, a nova realidade da profissão, de menor estabilidade no trabalho, transforma a relação do jornalista não só com a profissão, mas com o próprio corpo. “Com a desregulamentação, vocês têm que ter em mente desde se alimentar melhor e não ficar rouco, por exemplo, até pensar em seguro de vida, previdência, em guardar dinheiro desde o início da carreira”, recomendou.

Racismo e machismo na profissão: “Duvido que tenha uma mulher no mercado jornalístico que não tenha enfrentado uma situação de assédio sexual”.

Um dos pontos altos da mesa ocorreu quando Flávia foi perguntada sobre assédio e racismo na profissão. A jornalista é uma exceção em uma área do jornalismo onde predomina o perfil do comentarista homem e branco. Ao falar sobre representatividade negra na profissão foi taxativa: “Representatividade não há. Isso é fato. E como eu sou sempre citada como a jornalista negra, eu sou exceção e confirmo a regra e a invisibilidade”.

Flávia surpreendeu a plateia ao revelar que sofreu assédio sexual e racismo em diversas oportunidades, ao longo de sua trajetória. Contou que uma vez foi confundida com uma prostituta pelo recepcionista de um hotel, em Brasília, durante uma viagem de trabalho. “Eu fiquei muito mal, chorei muito. Na época, fiquei pensando que devia ter algo de errado com a minha roupa para ele pensar isso. Levou tempo para eu entender o que realmente tinha acontecido”, contou.

O episódio lamentável foi uma das diversas dificuldades que a menina criada no bairro de Irajá, Zona Norte do Rio, enfrentou para construir sua carreira. Ao final da mesa, as palmas da plateia foram entusiasmadas, e ficou para os estudantes a certeza de que a resistência e a inquietude são as matérias-primas para que o jornalista entenda que o compromisso com as questões sociais é intrínseco à escolha da profissão.


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Controversas lota Interartes em mais uma edição

Por Álvaro Danezine 

Sala Interartes, no IACS, esteve lotada durante o Controversas
Mais de 100 pessoas – entre estudantes de Comunicação e de Jornalismo da UFF e convidados externos – participaram da última edição do Controversas, nos dias 6 e 7 de dezembro, no Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS) da UFF, em Niterói. A sala Interartes, onde tradicionalmente ocorre o evento, ficou com todos os lugares ocupados em diversos momentos dos dois dias de debates. A plateia esteve curiosa e atenta aos diversos temas colocados em pauta.
Entre os participantes, estava a professora do Instituto Carla Baiense, que elogiou a mediação das mesas de debate desta edição, feita somente por alunos de Jornalismo da UFF.
“Essa competência (da mediação) já existe nesses alunos, o que faltava era uma oportunidade de se sentirem mais seguros para realizar isso, e estão fazendo de forma brilhante”, disse a professora.
A docente elogiou também o perfil plural dos convidados das mesas de debate, formadas tanto por profissionais do mercado tradicional como por jornalistas independentes, e alguns reunindo dos dois tipos de experiência: “A gente tem nos dois dias pessoas que vieram do mercado tradicional, mas que partiram pra outras experiências e isso é muito interessante, porque mostra novas perspectivas. A gente olha pro futuro e vê que há esperança”, acrescentou.
A mesa sobre tendências para o jornalismo na web, reunindo profissionais de fact-cheking e jornalismo de dados, foi a preferida do aluno Ricardo Faria, do 9° período de Comunicação Social/Jornalismo da UFF, que disse terem sido abordados temas atuais, mas que se revelam como tendências. 
Público elogiou temas, convidados e mediação dos alunos (Foto:Julliana Martins)
“O questionamento proposto reflete-se muito sobre o presente, mas sempre olhando o futuro e os vários tipos de jornalismo que podem se constituir como os principais. O jornalismo de dados, por exemplo, é uma tendência e tem tudo para ser ainda mais importante ao longo dos próximos anos”, disse o estudante.
O Controversas é um evento aberto ao público e produzido por alunos de Jornalismo da UFF. Em todos os semestres em que ocorreu, o evento mobilizou diversos estudantes e interessados em debater o futuro da atividade. O aluno Leon Lucius, do 8° período de Jornalismo, ressaltou a importância do evento para seu aprendizado ao longo da graduação.
“O Controversas é sempre uma oportunidade para a gente aprender mais, não só sobre o mercado de trabalho, mas também sobre os outros papeis que o jornalista pode exercer para a sociedade. Estou no 8° período, mas a cada Controversas vejo que tem mais pra aprender, e vejo que esse é o objetivo”.

Fotojornalismo: tendências, riscos e impactos

Por Álvaro Danezine

Um debate sobre tendências para o fotojornalismo encerrou o primeiro dia do Controversas. Além de responder perguntas dos alunos-mediadores e da plateia, os fotojornalistas Márcia Foletto, do Globo, e Fábio Caffé, dos coletivos Favela em Foco e Folia de Imagens, exibiram produções e contaram bastidores dos trabalhos exibidos.

Márcia falou sobre o perigo que muitas vezes correu para registrar as mazelas do estado do Rio de Janeiro, como na foto abaixo, capturada durante a inauguração de uma via de trem que passa pela favela do Jacarezinho. Ao passar pela comunidade, a fotógrafa conta que o trem foi alvo de tiros. No entanto, ao contrário dos presentes na fotografia, ela permaneceu em pé.

Flagrante do momento em que trem é atingido por tiroteio, ao passar pela
favela do Jacarezinho, no dia de sua inauguração (Foto: Márcia Foletto)
“Quando a gente está com uma câmera na mão, muitas vezes não percebe o perigo ou o risco que corre diante de uma situação (...). Com a câmera, parecia que eu estava protegida. Aquela coisa de criança que se esconde, tapa o rosto e acha que não é vista. Quando o trem parou, eu vi que uma bala entrou no trem a menos de trinta centímetros de onde eu estava”, contou.

Desde 1991, Marcia Folleto trabalha na cobertura do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro para o O Globo, além de produzir matérias especiais. Entre as premiações conquistados pela fotojornalista estão os prêmios Finep, CNT e Petrobras de Jornalismo, este último conquistado este ano.
Fábio Caffé e Márcia Foletto exibiram e comentaram trabalhos, na UFF (Foto: Lorenna Martins)
Formado pela Escola de Fotógrafos Populares e graduado em Cinema pela UFF, o convidado Fábio Caffé é integrante do coletivo multimídia Favela em Foco. Fez parte do projeto Imagens do Povo entre 2007 e 2016. O fotodocumentarista já participou de exposições coletivas ao redor do Brasil e realizou uma exposição individual na Escócia em 2011. 

Reconhecido pelo foco social de seu trabalho, Caffé falou sobre a formação do Coletivo Favela em Foco, fundado em 2009. O grupo vem registrando a vida cotidiana, as belezas, os fazeres e também as desigualdades e mudanças sofridas pela cidade do Rio de Janeiro, como é o caso da barreira acústica construída em frente à Favela da Maré. 

“O coletivo surge em 2009, por coincidência, no mesmo ano da fundação se comemorava os 20 anos da queda do Muro de Berlim. Depois da fundação, fizemos essa leitura e esse paralelo com a queda do muro, pois nesse mesmo ano a prefeitura do Rio de Janeiro criava uma barreira acústica saindo da linha vermelha para tampar a Favela da Maré. A gente discute muito a intenção de esconder a favela. A ideia era que, à primeira vista, o turista não visse a Maré".
O trabalho do coletivo de 2009 até os dias atuais pode ser visto no  Coletivo Favela em Foco
Além de fotos dos coletivos dos quais participa, Caffé exibiu o curta-metragem realizado pelo fotógrafo e cineasta Léo Lima, também integrante do Favela em Foco sobre um morador conhecido da favela do Jacarezinho, o vendedor de cloro Gerci de Melo Alves. 

Fotojornalismo X Smartphones
Frente à velocidade da informação trazida pela tecnologia, com os smarthphones e a própria internet, os profissionais convidados comentaram como o fotojornalismo tem se adequado, em alguns momentos se aliado, às inovações.  

Marcia Foletto estabeleceu uma diferença entre os tipos de registros feitos pela população comum, através de smartphones, e o trabalho dos fotojornalistas. “Hoje em dia todo mundo é fotográfo. Você tem quinhentos mil celulares e em qualquer lugar que você vai todo mundo registra a cena. Agora, como você vai trazer naquela cena uma imagem que seja relevante e que não fique no primeiro plano? Esse é o nosso trabalho. Buscar essa estética que não é o que o olhar comum está vendo.”

Fábio enfatizou a importância da atuação jornalística, para além da produção fotográfica. “Eu acho muito bom ter cada vez mais gente fotografando, mas isso não vai substituir uma boa apuração. A tendência do jornalista é fazer uma apuração melhor, mas acho muito bom termos cada vez mais fotógrafos.” 

Jornalismo de dados e fact-cheking são apontados como tendências para o jornalismo na web

Por Bárbara Queiroz

O segundo dia de Controversas reuniu grandes nomes do mercado jornalístico, entre eles Fábio Vasconcellos, jornalista e, atualmente, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, e Leandro Resende, repórter da Agência Lupa, que debateram tendências para o jornalismo na web. Na primeira mesa do dia, os convidados apontaram o jornalismo de dados e o fact-checking (checagem de dados) como importantes tendências para o jornalismo na web.
Fabrycio Azevedo, Leandro Resende, Fábio Vasconcellos e Álvaro Danezine
na mesa sobre jornalismo na web, no Controversas (Foto: Breno Behnken)
Em janeiro deste ano, a Pesquisa Brasileira de Mídia, divulgada pela Secretaria de Comunicação Social do Governo, revelou que o segundo meio de comunicação e informação mais usado pelo brasileiro é a internet, atrás apenas da TV. De acordo com o estudo, 50% da população se informam pela internet, a maioria pelo celular. Esses foram alguns dados abordados para ressaltar a importância dessas novas tendências do jornalismo online.

Jornalismo de dados: não foi sempre assim?

Fábio Vasconcellos explicou que o papel da audiência mudou nos anos 1990 com a internet, mas que o cenário só começou a se assemelhar ao de hoje após a virada dos anos 2000. Daí para diante, a web 2.0 passou a permitir a interação entre o usuário e o produtor de conteúdo, alterando o papel, a cultura e os conteúdos jornalísticos. Segundo Fábio, a prática do jornalismo de dados implica reconhecer que o repórter não pode fazer tudo, e ter um feedback do leitor é fundamental.
“Nós ainda estamos em um processo pedagógico de aprender a dialogar com a internet. Existe ali muita gente raivosa, às vezes é difícil estabelecer um diálogo pra direcionar ou pautar o seu material. Com o tempo, a gente observou que no jornalismo de dados a gente mobilizava pessoas críticas mais elegantes e que, em muitos momentos, era possível incorporar contribuições a materiais que estavam no ar”, disse para os mediadores Fabrycio Azevedo e Álvaro Danezine, alunos de Jornalismo da UFF.

Apesar do modelo jornalístico tradicional sempre ter sido pautado no factual, existem diferenças entre o jornalismo com dados e o jornalismo de dados:

“Nas matérias corriqueiras que a gente faz diariamente, os dados chegam tabulados, prontos, vindos de instituições nas quais a gente confia. Isso a gente chama de jornalismo com dados. No jornalismo de dados, em vez de receber as tabelas do censo do IBGE, por exemplo, você começa a observar os dados brutos, começa a ver técnicas de buscar, baixar e analisar dados brutos. Vão envolver outras competências, analítica e tecnológica, entre outras”, explicou.

Democratização da informação e proliferação das notícias falsas 

Fábio Vasconcellos (com Álvaro Danezine) falou sobre o jornalismo de dados
Apesar dos benefícios de se obter cada vez mais dados de maneira mais acessível, a democratização da informação através da internet pode acarretar problemas. Se o jornalismo “off-line” já possuía uma grande responsabilidade social e ética com a verdade, capaz construir e desconstruir reputações e discursos por conta de uma apuração mal feita, com a pluralidade de vozes na internet o perigo é ainda maior. Não se trata mais de jornalistas informando, mas do poder de noticiar um fato nas pontas dos dedos de qualquer pessoa que possua um smartphone.

É nesse cenário de democracia virtual que se intensifica a proliferação de notícias falsas, as fake news, ocasionando uma nova alternativa de se fazer jornalismo: o fact-checking (checagem dos fatos). Hoje, existem agências especializadas na verificação de dados e informações que circulam pelas redes, como é o caso da Agência Lupa, a primeira no Brasil a se especializar nessa técnica jornalística de desmentir notícias falsas. Segundo Leandro Resende, repórter da agência, o maior desafio do trabalho não está na apuração da informação, mas em como reverter o que já está sendo compartilhado.

“A gente vai lá e carimba ‘falso’, está lá, o problema é como a gente vai chegar para o cara que já compartilhou isso e dizer que é falso? Existe esse desafio”, disse Leandro. “Se uma notícia falsa está sendo disseminada, por exemplo, em um GIF, não adianta eu construir um ‘textão’ brilhante para desmentir. Você tem que saber jogar o jogo”, complementou.

Para um auditório cheio, o convidado falou sobre os dois preceitos básicos da agência que, acredita, devem ser seguidos no fact-checking e que interferiram na sua forma de compreender o jornalismo: a total transparência de fontes e a publicação de tudo o que foi usado na matéria.

“Recebi um documento. Mas de onde? Não sei. Se não tem como você dar ao seu leitor o direito de saber de onde você tirou a sua informação, não tem como publicar”, explicou reafirmando que não basta entregar os dados, é preciso apresentar a fonte e dizer como foram obtidos.

Cultura de checagem e desafios para editores

Ao final da mesa, entre interações com alunos, foi discutida a importância de se criar uma cultura de checagem que inibiria as notícias falsas, um desafio aos editores. Para Leandro, é importante que as pessoas entendam que o que está sendo veiculado nos meios de comunicação – não apenas jornalísticos – pode ser um dado exagerado, por exemplo, o que já caracteriza uma informação falsa ainda que em um contexto verídico.

“O nosso trabalho é dar a informação correta. A ideia que muita gente tem é que quando damos um ‘falso’ para o Lula é porque somos ‘tucanos’ ou que quando damos um falso para o Bolsonaro é porque somos de esquerda. Nós não somos um nem outro, mas se esses comentários estão sendo feitos é sinal de que a gente está no caminho”, afirmou Leandro.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Controversas discute o futuro do jornalismo e se despede do professor Ildo Nascimento

Por Luanna Leal

A 13ª edição do Controversas começou com gostinho de saudade. Nesse ano, aconteceu a despedida do professor Ildo Nascimento, que criou a programação visual de todas as edições do evento. O professor atuou também como coordenador adjunto em parceria com a professora Larissa Morais, uma das idealizadoras do projeto. Depois de 7 anos de criações para o Controversas, Ildo se despediu participando da mesa de abertura do evento, ao lado de Larissa, Kleber Mendonça, diretor do IACS, e Flávia Clemente, chefe de departamento da Comunicação Social.
Flávia Clemente, Kleber Mendonça, Ildo Nascimento e Larissa Morais na mesa de Abertura da 13ª edição do Controversas (Foto: Julliana Martins)
A abertura do evento aconteceu com falas motivadoras e emocionadas dos participantes da mesa, que incentivam a discussão sobre o futuro da profissão. A professora Larissa agradeceu a todos os participantes e colaboradores e, principalmente, ao colega Ildo pelo apoio recebido ao longo dos anos. Ela disse considerar que a decisão de abordar as perspectivas para o futuro se mostrou mais acertada do que discutir a crise, ponto de vista reforçado por Kleber: “Se enfatizamos a crise, acabamos por profetizá-la, e não é isso que a gente quer. Principalmente no momento difícil que vivemos, é preciso mostrar que as universidades são fundamentais para o país”.

A chefe de departamento Flávia Clemente enalteceu o sucesso do Controversas e enfatizou a importância da discussão em pauta. A professora, que foi aluna de Ildo Nascimento, além de lecionar ao seu lado, se despediu com uma ponta de saudosismo do mestre, lembrando com carinho do tempo passado ao lado dele.
O professor Ildo Nascimento foi o grande homenageado na abertura do evento (Foto: Julliana Martins)
Já o professor Ildo relembrou seus momentos no IACS. Após lecionar por mais de 50 semestres, para mais de 3000 alunos, ele viveu muita coisa dentro das paredes rosas do casarão da Lara Vilella. Na sua fala ele fez uma confissão: “Morro de inveja de todos vocês, como morri de inveja de todas as plateias das edições anteriores do Controversas. No meu tempo de faculdade era impensável organizar ou participar de um evento assim. Qualquer encontro com mais de meia dúzia de pessoas podia ser considerado subversivo pela ditadura”, contou. Para Ildo, o Controversas ajuda os alunos a se encontrarem dentro da faculdade e, principalmente dentro da profissão.

Os alunos da produção do evento organizaram um vídeo em homenagem ao professor recém-aposentado, relembrando momentos emocionantes vividos por Ildo no IACS. A homenagem fez a professora Larissa chorar, além de deixar o ilustre homenageado com lágrimas nos olhos. E claro que não poderia faltar o hino do tão amado Botafogo, para alegrar o professor fanático pelo time.
Foi com esse clima de carinho e saudade antecipada que se iniciou o 13º Controversas, repleto de discussões e relatos para estimular e encantar os alunos do casarão rosa, que enxergam no futuro muitas oportunidades para a profissão.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Sem plano de voo - Entrevista com Alex Escobar


Por Daniel Santos, Mariana Teixeira, Julliana Martins e Raíssa Fontes.


Entrevista com Alex Escobar
(Foto: Divulgação) 


Não tenho mais sonho pra sonhar. Meu sonho talvez seja ficar aqui (na Globo) enquanto tiver saúde e eles me derem um cantinho. É muito bom estar aqui, acho que o fato de não fazer planos tem me ajudado, porque isso diminui a ansiedade. Se eu posso dar uma dica pra vocês é: não façam planos! 

Comissário de bordo, locutor, apresentador, comentarista. A carreira de Alex Escobar passou por diversas mudanças inesperadas, com uma mistura de coincidências e talento, Alex construiu uma história memorável e inspiradora.
Escobar é apresentador do Globo Esporte, programa que é transmitido todos os dias pela Rede Globo. Desde 2008, ele possui essa função, no entanto, nem sempre foi assim. Antes de começar sua carreira no jornalismo, era comissário de bordo. Isso mesmo, trabalhava na área da aviação. Um ramo distante do seu sonho, contudo foi o responsável pela primeira oportunidade para realizá-lo.
Após trabalhar como locutor de voo, seu primeiro emprego na comunicação foi na rádio JB FM. Passado algum tempo, foi convidado para mediar a mesa do programa esportivo Rock Bola, transmitido pela Rádio Cidade. Segundo ele, ser torcedor do América foi o motivo pelo qual conseguiu o emprego. Nascido no bairro de Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Escobar disse que desde criança adora futebol e sempre assistiu aos jogos prestando atenção na tática. Por isso, quando foi convidado para trabalhar com esporte, não hesitou.
Em 2003, Alex Escobar entrou para televisão e não saiu mais. Em 2016, é um sucesso como apresentador do Globo Esporte e, recentemente, começou uma nova função na tevê Globo, o de narrador de jogos de futebol. Nesse cargo, passou a lidar mais frequentemente com as críticas, situação na qual não estava acostumado.
Com um início de carreira praticamente ao acaso, Alex Escobar participou de três copas do mundo, comentou a final de uma delas pelo canal SporTV e é um jornalista estabilizado na profissão. Nessa entrevista, ele demonstrou uma grande felicidade pelo seu trabalho e compartilhou sua inusitada trajetória profissional conosco. 

Eu li que você foi comissário de voo e vi também que você sempre quis trabalhar no rádio. Por que você investiu primeiro na área da aviação e não no jornalismo? 
Alex Escobar: Porque ninguém queria deixar eu trabalhar no rádio (risos). Eu precisava trabalhar, e o voo foi uma oportunidade de fazer um curso que durava seis meses. Era uma forma de eu ganhar um salário um pouco melhor, rápido, então foi por isso que eu fui pro voo. Mercenário total. Voei por 4 anos, é muito legal para quem não tem vínculo. Sou um cara que tenho vínculos, tenho com meus pais, já tinha minha filha mais velha e eu sentia falta dela pra caramba. Uma vez por ano a gente morava na Arábia Saudita, ficava três meses lá, voando pelos países muçulmanos, e eu decidi que ia sair da aviação porque uma vez, quando voltei de uma viagem dessas, a Mariana (filha mais velha de Alex) não quis ir no meu colo, ficou me estranhando uns dois ou três dias.
A oportunidade (no jornalismo) surgiu fazendo uma locução de bordo no avião, um colega ouviu, achou legal e falou “meu cunhado trabalha na JB FM, é locutor, vou falar com ele pra fazer um teste contigo lá”. Quando ele chegou no Brasil, o cara me ligou. Eu fui, fiz o teste e ele me retornou no dia seguinte dizendo “cara, seu teste ficou muito ruim. Vem fazer de novo, eu vou com você no estúdio, vou te mostrar umas coisas que você precisa melhorar”. Fui, realmente ficou bem diferente do que eu tinha feito. Quase um ano depois a rádio me chamou, eu já tinha até deixado para lá, mas me chamaram e eu larguei o voo para iniciar minha carreira no rádio. JB FM e depois Rádio Cidade com o Rock Bola (programa esportivo). 

Você sempre quis trabalhar com esporte? 
Alex Escobar: Eu sempre me interessei muito por esporte, desde molequinho. Esporte não, por futebol. Em 2002, ano de Copa do Mundo, a rádio tinha mudado para Rádio Rock e achou que tinha que ter um programa de futebol com uma linguagem diferente. Ela queria torcedores e juntou um de cada time comigo apresentando, porque eu sou América, acabei ficando imparcial. Esse programa bombou, deu muito certo, foi muito legal, eu fiquei de 2002 a 2005. Eu já estava acumulando com a SporTV desde 2003 e a partir de 2005 fiquei só na tevê.

Eu decidi que ia sair da aviação porque uma vez, quando voltei de uma viagem dessas, a Mariana (filha mais velha de Alex) não quis ir no meu colo, ficou me estranhando uns dois ou três dias.

Eu vi que essa sua oportunidade na SporTV veio de uma maneira inusitada. Em um churrasco?
Alex Escobar: Foi, cara, muito louco. A rádio organizou um futebol com churrasco com a banda Detonautas e nós sorteamos dez ouvintes para participar. Eu joguei a primeira, perdi, vi que já estava saindo carne, que a cerveja já estava gelada, aí fiz o meu prato, sentei e vi um cara meio deslocadão com um prato na mão, camisa social, e o convidei para sentar. Ele falou “sou amigo do Tico (vocalista da banda Detonautas), ele comentou dessa pelada, vim assistir”. A gente começou a conversar, ele me fez várias perguntas e eu fui contando pra ele da minha vida até ali. Até que ele me perguntou “mas o que você pretende da tua vida?”. Falei, “cara eu não sei, eu só não quero ficar velho no Rock Bola, porque vai chegar uma hora que vou ficar um velho bobo, não sei qual o prazo de validade e isso me preocupa um pouco. Eu queria continuar trabalhando com esporte”. Ele pegou um cartão no bolso e era diretor do SporTV. Marcamos um almoço para o dia seguinte, fiz teste de narrador e comentarista, e ele foi tanto com a minha cara que falou “cara, eu acho que você poderia narrar, mas teria que esperar mais, eu posso já te colocar como comentarista, você vai ganhar menos, mas você vai entrar”. E assim foi, entrei em 2003 e fiquei cinco anos lá. 

Quando você foi chamado para trabalhar na Globo, você teve alguma dificuldade em aceitar?
Alex Escobar: Nenhuma dificuldade (risos). Primeiro que era um desafio diferente, eu vim pro Bom Dia Brasil, onde era um misto de apresentador e comentarista. A gente batia papo, fazia perguntas, eu comentava o que tinha acontecido e ao mesmo tempo apresentava os gols, então achei maneiro. Além disso, na Globo, o céu é o limite. Você entra aqui e não sabe pra onde vai. Entrar aqui, profissionalmente, é maneiro demais, você não sabe onde vai chegar, então não pensei duas vezes.

Como você recebeu a notícia que ia ser apresentador do Globo Esporte? Como foi lidar com essa novidade?
Alex Escobar: A Globo estava com muita dificuldade de audiência. O Wagner Montes (apresentador do programa “Balanço Geral”, da Rede Record) estava fazendo sucesso para caramba com o programa dele e rivalizava muito com a gente. Até que a Globo contratou uma pesquisa para entender por quê isso estava acontecendo.  A pesquisa apontou que as pessoas das classes C, D e E diziam que a Globo não as entendia, que a gente não falava a língua deles. Eles se sentiam representados pelo Wagner Montes. Nosso diretor na época, João Pedro Paes Leme, saiu da reunião atordoado, entrou na redação do esporte da Globo e falou: “Caraca, só tem gente da Zona Sul nessa redação, só tem playboy, como a gente vai fazer isso, como vamos falar para essa galera?”. Eu estava no cantinho conversando com o Afonso (Garschagen, editor-chefe do Globo Esporte) e aí ele me viu, lembrou que sou de Bangu e me chamou pra apresentar um Globo Esporte reformulado. A partir daí, eu e o Afonso ficamos encarregados de popularizar o programa. 

A pesquisa apontou que as pessoas das classes C, D e E diziam que a Globo não as entendia, que a gente não falava a língua deles. Eu estava no cantinho conversando com o Afonso (Garschagen, editor-chefe do Globo Esporte) e aí ele me viu, lembrou que sou de Bangu e me chamou pra apresentar um Globo Esporte reformulado.

Você foi apresentador do Esporte Espetacular em 2015. Por que você voltou para o Globo Esporte, pouco mais de um ano depois?
Alex Escobar: Pois é, não sei. São coisas da direção, não sei como é com o Bonner, mas aqui a gente não escolhe nada não (risos). Eles é que decidem, para o Esporte Espetacular foi assim, me chamaram, falaram “você já está há cinco anos no Globo Esporte, a gente acha que você precisa dar uma mudada”. Fiquei um ano, mas durante a Olimpíada me procuraram para dizer que eu ia voltar para o Globo Esporte e que não devia ter saído. 

Como foi sua experiência no Esporte Espetacular?
Alex Escobar: Gosto mais do Globo Esporte. Para quem faz programa ao vivo é igual a jogar bola, andar de bicicleta, você precisa fazer, você fica com ritmo de jogo, sabe?

Você não pode se desconcentrar. Não pode confundir a tranquilidade de saber o que você está fazendo com relaxamento porque se você relaxar vai dar errado.

Bate um nervosismo?
Alex Escobar: Nervosismo não mais, mas você não pode se desconcentrar. Não pode confundir a tranquilidade de saber o que você está fazendo com relaxamento porque se você relaxar vai dar errado. Eu brinco muito com o pessoal do estúdio, até pra eu entrar no ar no pique também. Eu funciono assim, se eu entrar na minha, ficar muito sério, chegar em cima da hora, eu noto que no ar também fico mais sério. Então já chego meio que tocando o terror, boto apelido nas pessoas, para eu entrar no ar com o pé na porta, brincando, com sorriso no rosto.


Como foi a sua transição do rádio para a tevê?
Alex Escobar: Ah, sente, né. Porque no rádio eu ia trabalhar de chinelo, bermuda. Não fazia a barba se não estivesse a fim; muitas vezes fui com a roupa que estava em casa. A responsabilidade é muito menor porque o alcance é muito menor. Na tevê, além de ter que pensar na sua imagem, tem a coisa da câmera, que você demora um pouquinho para ficar à vontade. Mas, principalmente, a coisa da responsabilidade. Tem que pensar muito bem no que você vai falar, porque o alcance é muito grande. A repercussão de tudo aqui na Globo é muito grande, para o bem e para o mal. Então a gente tem que tomar muito cuidado.

 No rádio eu ia trabalhar de chinelo, bermuda. Não fazia a barba se não estivesse a fim. Na tevê tem que pensar muito bem no que você vai falar, porque o alcance é muito grande. Então a gente tem que tomar muito cuidado.
Como você lida com as críticas?
Alex EscobarMal! (risos). Admito que eu sou meio fraco para crítica. Se a crítica é feroz, como no Twitter, eu não tô nem aí. Porque eu sei que o cara está fazendo para me agredir, então não dou bola. Mas, quando eu percebo que tem um fundamento fico bem triste. Não fico com raiva, não, fico triste. Frouxo, né, cara? Não gosto de errar.

Como foi sua experiência com Copa do Mundo?             
Alex Escobar: Copa do Mundo pra mim é Disneylândia. Trabalha-se muito porque você não manda para uma Copa do Mundo a quantidade de pessoas ideal para fazer todos os programas, então quem vai faz tudo, rala muito. Mas, ao mesmo tempo, é um sonho. Porque, como eu disse, me interesso por futebol desde muito cedo, desde muito menino. Então, primeira Copa foi em 2006, eu fui como comentarista pelo SporTV. Foi o máximo porque eu comentei o jogo de abertura e a final também. Fora outros jogos. Rodei pela Alemanha lá, foi maravilhoso. Foi quando eu vi que, finalmente, tinha ido de Bangu para o mundo.  Depois, em 2010, na África do Sul, eu já fui pelo “Bom Dia Brasil”, pela Globo. Foi mais chato, porque eu não participei dos jogos, não estava mais comentando jogo, nem narrando. E 2014, agora no Brasil, foi muito maneiro porque eu comecei a narrar no início de 2014, narrei sete jogos na Copa e foi o máximo. Desculpa quem não gosta, mas pra mim foi o máximo! Voltando à questão da crítica: com a narração voltei vinte casas. Porque como apresentador eu sou pouco contestado, muito pouco. Como narrador eu sou muito contestado. (risos) 

Admito que eu sou meio fraco para crítica. Se a crítica é feroz, como no Twitter, eu não tô nem aí. Mas, quando eu percebo que tem um fundamento fico bem triste. Não fico com raiva, não, fico triste. Frouxo, né, cara? Não gosto de errar.
 
Qual foi o programa mais difícil e o mais gratificante de ter feito? 
Alex Escobar: Ah, o difícil foi esse avião da Chapecoense, que tinha entre os mortos um amigo aqui da redação, o Guilherme Van Der Laars. Ele ficou sabendo que a mulher estava grávida do terceiro filho agora em junho, eu estava junto quando ele soube. Era um cara com quem eu convivia, me amarrava, foi duro falar da morte dele. Talvez o que tenha me deixado mais feliz tenha sido narrar uma Copa do mundo, aquilo foi sonho de criança. Eu narrava futebol de botão, vídeo game e estava narrando um jogo de Copa do Mundo, na Globo, não teve nada mais gratificante do que isso.

Como é sua rotina aqui?  
Alex Escobar: Escrevo muito pouco, muito pouco. Porque eu não saberia escrever como eles (equipe do Globo Esporte) escrevem, essa que é a grande verdade. É uma equipe montada cada um na sua. Tem os que escrevem pra caramba, nossos editores de imagem são muito bons, esses caras são de cinema. Eu tenho mais prazer em pegar o texto e deixar ele do meu jeito, não tenho texto no TP (Teleprompter, aparelho onde os apresentadores leem os textos durante os programas). Eu coloco uns tópicos e vou falando. Porque se você domina, o TP às vezes atrapalha mais do que outra coisa, então coloca no TP o que você não pode esquecer de falar e fala do teu jeito. Fica muito mais natural.
 
Então você vem pra cá e só grava o programa? 
Alex Escobar: Eu chego oito da manhã, oito e meia, porque a edição da imagem de alguns textos é muito demorada, então eu preciso estar aqui cedo pra gravar e dar tempo de gravar para o programa. Basicamente fico gravando off (áudio de fundo das reportagens) e me inteirando das coisas que estão acontecendo no dia. Às vezes, faço uma ligação ou estudo pela internet mesmo, porque justamente por eu não ler no TP eu preciso ter o programa na minha mão, preciso saber de tudo que eu estou falando ali, então eu me preparo pra isso.

Às vezes, as pessoas confundem que para ser apresentador tem que fazer graça, não é isso. Tem que ser você. A pessoa que está vendo em casa tem que ver assim e achar que é ele que tá ali, não um personagem.


Você lembra da sua primeira entrevista?
Alex Escobar: Putz, entrevista não. Eu lembro da primeira aparição na televisão que foi comentando um jogo, Figueirense e Fluminense, lá no campo do América, e eu sou América, olha que coincidência. Em casa, né.

Entre os jornalistas, quem você mais admira, quem você mais se espelha?
Alex Escobar: Ah, algumas pessoas. Eu acho o Tiago (Leifert) muito bom, Tadeu Schmidt eu acho incrível como ele fica à vontade no ar, parece que está em casa, uma naturalidade. Tadeu foi o primeiro aqui a não usar o texto no TP, aí o Tiago começou a fazer no Globo Esporte em São Paulo e eu aqui.  Às vezes, as pessoas confundem que para ser apresentador tem que fazer graça, não é isso. Tem que ser você. A pessoa que está vendo em casa tem que ver assim e achar que é ele que tá ali, não um personagem. O caminho é esse, naturalidade, a palavra-chave é essa, tem que ser natural.

Como é a sensação de olhar para trás e ver tudo que você percorreu até agora? 
Alex Escobar: É incrível! Se você me perguntar: “Qual é o teu sonho?”. Pô, nenhum. Não tenho mais sonho para sonhar. Meu sonho talvez seja ficar aqui (na Globo) enquanto tiver saúde e eles me derem um cantinho. É muito bom estar aqui, acho que o fato de não fazer planos tem me ajudado, porque isso diminui a ansiedade. Se eu posso dar uma dica para vocês é: não façam planos!