Por Daniel Santos,
Mariana Teixeira, Julliana Martins e Raíssa Fontes.
Entrevista com Alex Escobar
(Foto: Divulgação)
Não tenho mais sonho pra sonhar. Meu sonho talvez seja ficar
aqui (na Globo) enquanto tiver saúde e eles me derem um cantinho. É muito bom
estar aqui, acho que o fato de não fazer planos tem me ajudado, porque isso
diminui a ansiedade. Se eu posso dar uma dica pra vocês é: não façam
planos!
Comissário
de bordo, locutor, apresentador, comentarista. A carreira de Alex Escobar
passou por diversas mudanças inesperadas, com uma mistura de coincidências e
talento, Alex construiu uma história memorável e inspiradora.
Escobar é apresentador do Globo
Esporte, programa que é transmitido todos os dias pela Rede Globo. Desde 2008,
ele possui essa função, no entanto, nem sempre foi assim. Antes de começar sua
carreira no jornalismo, era comissário de bordo. Isso mesmo, trabalhava na área
da aviação. Um ramo distante do seu sonho, contudo foi o responsável pela
primeira oportunidade para realizá-lo.
Após trabalhar como locutor de voo,
seu primeiro emprego na comunicação foi na rádio JB FM. Passado algum tempo,
foi convidado para mediar a mesa do programa esportivo Rock Bola, transmitido
pela Rádio Cidade. Segundo ele, ser torcedor do América foi o motivo pelo qual
conseguiu o emprego. Nascido no bairro de Bangu, na Zona Oeste do Rio de
Janeiro, Escobar disse que desde criança adora futebol e sempre assistiu aos
jogos prestando atenção na tática. Por isso, quando foi convidado para
trabalhar com esporte, não hesitou.
Em 2003, Alex Escobar entrou para
televisão e não saiu mais. Em 2016, é um sucesso como apresentador do Globo
Esporte e, recentemente, começou uma nova função na tevê Globo, o de narrador
de jogos de futebol. Nesse cargo, passou a lidar mais frequentemente com as
críticas, situação na qual não estava acostumado.
Com um início de carreira praticamente
ao acaso, Alex Escobar participou de três copas do mundo, comentou a final de
uma delas pelo canal SporTV e é um jornalista estabilizado na profissão. Nessa
entrevista, ele demonstrou uma grande felicidade pelo seu trabalho e
compartilhou sua inusitada trajetória profissional conosco.
Eu
li que você foi comissário de voo e vi também que você sempre quis trabalhar no
rádio. Por que você investiu primeiro na área da aviação e não no jornalismo?
Alex Escobar: Porque ninguém queria deixar eu trabalhar no rádio
(risos). Eu precisava trabalhar, e o voo foi uma oportunidade de fazer um curso
que durava seis meses. Era uma forma de eu ganhar um salário um pouco melhor,
rápido, então foi por isso que eu fui pro voo. Mercenário total. Voei por 4
anos, é muito legal para quem não tem vínculo. Sou um cara que tenho vínculos,
tenho com meus pais, já tinha minha filha mais velha e eu sentia falta dela pra
caramba. Uma vez por ano a gente morava na Arábia Saudita, ficava três meses
lá, voando pelos países muçulmanos, e eu decidi que ia sair da aviação porque
uma vez, quando voltei de uma viagem dessas, a Mariana (filha mais velha de
Alex) não quis ir no meu colo, ficou me estranhando uns dois ou três dias.
A oportunidade (no jornalismo) surgiu
fazendo uma locução de bordo no avião, um colega ouviu, achou legal e falou
“meu cunhado trabalha na JB FM, é locutor, vou falar com ele pra fazer um teste
contigo lá”. Quando ele chegou no Brasil, o cara me ligou. Eu fui, fiz o teste
e ele me retornou no dia seguinte dizendo “cara, seu teste ficou muito ruim. Vem
fazer de novo, eu vou com você no estúdio, vou te mostrar umas coisas que você
precisa melhorar”. Fui, realmente ficou bem diferente do que eu tinha feito.
Quase um ano depois a rádio me chamou, eu já tinha até deixado para lá, mas me
chamaram e eu larguei o voo para iniciar minha carreira no rádio. JB FM e
depois Rádio Cidade com o Rock Bola (programa esportivo).
Você
sempre quis trabalhar com esporte?
Alex
Escobar: Eu sempre me interessei muito por
esporte, desde molequinho. Esporte não, por futebol. Em 2002, ano de Copa do Mundo,
a rádio tinha mudado para Rádio Rock e achou que tinha que ter um programa de
futebol com uma linguagem diferente. Ela queria torcedores e juntou um de cada
time comigo apresentando, porque eu sou América, acabei ficando imparcial. Esse
programa bombou, deu muito certo, foi muito legal, eu fiquei de 2002 a 2005. Eu
já estava acumulando com a SporTV desde 2003 e a partir de 2005 fiquei só na
tevê.
Eu decidi que ia sair da aviação porque uma vez, quando
voltei de uma viagem dessas, a Mariana (filha mais velha de Alex) não quis ir
no meu colo, ficou me estranhando uns dois ou três dias.
Eu
vi que essa sua oportunidade na SporTV veio de uma maneira inusitada. Em um
churrasco?
Alex
Escobar: Foi, cara, muito louco. A rádio
organizou um futebol com churrasco com a banda Detonautas e nós sorteamos dez
ouvintes para participar. Eu joguei a primeira, perdi, vi que já estava saindo
carne, que a cerveja já estava gelada, aí fiz o meu prato, sentei e vi um cara
meio deslocadão com um prato na mão, camisa social, e o convidei para sentar.
Ele falou “sou amigo do Tico (vocalista da banda Detonautas), ele comentou
dessa pelada, vim assistir”. A gente começou a conversar, ele me fez várias
perguntas e eu fui contando pra ele da minha vida até ali. Até que ele me
perguntou “mas o que você pretende da tua vida?”. Falei, “cara eu não sei, eu
só não quero ficar velho no Rock Bola, porque vai chegar uma hora que vou ficar
um velho bobo, não sei qual o prazo de validade e isso me preocupa um pouco. Eu
queria continuar trabalhando com esporte”. Ele pegou um cartão no bolso e era
diretor do SporTV. Marcamos um almoço para o dia seguinte, fiz teste de
narrador e comentarista, e ele foi tanto com a minha cara que falou “cara, eu
acho que você poderia narrar, mas teria que esperar mais, eu posso já te
colocar como comentarista, você vai ganhar menos, mas você vai entrar”. E assim
foi, entrei em 2003 e fiquei cinco anos lá.
Quando
você foi chamado para trabalhar na Globo, você teve alguma dificuldade em
aceitar?
Alex
Escobar: Nenhuma dificuldade (risos).
Primeiro que era um desafio diferente, eu vim pro Bom Dia Brasil, onde era um
misto de apresentador e comentarista. A gente batia papo, fazia perguntas, eu
comentava o que tinha acontecido e ao mesmo tempo apresentava os gols, então
achei maneiro. Além disso, na Globo, o céu é o limite. Você entra aqui e não
sabe pra onde vai. Entrar aqui, profissionalmente, é maneiro demais, você não
sabe onde vai chegar, então não pensei duas vezes.
Como
você recebeu a notícia que ia ser apresentador do Globo Esporte? Como foi lidar
com essa novidade?
Alex
Escobar: A Globo estava com muita dificuldade
de audiência. O Wagner Montes (apresentador do programa “Balanço Geral”, da
Rede Record) estava fazendo sucesso para caramba com o programa dele e
rivalizava muito com a gente. Até que a Globo contratou uma pesquisa para
entender por quê isso estava acontecendo.
A pesquisa apontou que as pessoas das classes C, D e E diziam que a
Globo não as entendia, que a gente não falava a língua deles. Eles se sentiam
representados pelo Wagner Montes. Nosso diretor na época, João Pedro Paes Leme,
saiu da reunião atordoado, entrou na redação do esporte da Globo e falou:
“Caraca, só tem gente da Zona Sul nessa redação, só tem playboy, como a gente
vai fazer isso, como vamos falar para essa galera?”. Eu estava no cantinho
conversando com o Afonso (Garschagen, editor-chefe do Globo Esporte) e aí ele
me viu, lembrou que sou de Bangu e me chamou pra apresentar um Globo Esporte
reformulado. A partir daí, eu e o Afonso ficamos encarregados de popularizar o
programa.
A pesquisa apontou que as pessoas das classes C, D e E
diziam que a Globo não as entendia, que a gente não falava a língua deles. Eu
estava no cantinho conversando com o Afonso (Garschagen, editor-chefe do Globo
Esporte) e aí ele me viu, lembrou que sou de Bangu e me chamou pra apresentar
um Globo Esporte reformulado.
Você
foi apresentador do Esporte Espetacular em 2015. Por que você voltou para o
Globo Esporte, pouco mais de um ano depois?
Alex
Escobar: Pois é, não sei. São coisas da
direção, não sei como é com o Bonner, mas aqui a gente não escolhe nada não
(risos). Eles é que decidem, para o Esporte Espetacular foi assim, me chamaram,
falaram “você já está há cinco anos no Globo Esporte, a gente acha que você
precisa dar uma mudada”. Fiquei um ano, mas durante a Olimpíada me procuraram
para dizer que eu ia voltar para o Globo Esporte e que não devia ter saído.
Como
foi sua experiência no Esporte Espetacular?
Alex
Escobar: Gosto mais do Globo Esporte. Para
quem faz programa ao vivo é igual a jogar bola, andar de bicicleta, você precisa
fazer, você fica com ritmo de jogo, sabe?
Você não pode se desconcentrar. Não pode confundir a
tranquilidade de saber o que você está fazendo com relaxamento porque se você
relaxar vai dar errado.
Bate
um nervosismo?
Alex
Escobar: Nervosismo não mais, mas você não
pode se desconcentrar. Não pode confundir a tranquilidade de saber o que você
está fazendo com relaxamento porque se você relaxar vai dar errado. Eu brinco
muito com o pessoal do estúdio, até pra eu entrar no ar no pique também. Eu
funciono assim, se eu entrar na minha, ficar muito sério, chegar em cima da
hora, eu noto que no ar também fico mais sério. Então já chego meio que tocando
o terror, boto apelido nas pessoas, para eu entrar no ar com o pé na porta,
brincando, com sorriso no rosto.
Como
foi a sua transição do rádio para a tevê?
Alex
Escobar: Ah, sente, né. Porque no rádio eu ia
trabalhar de chinelo, bermuda. Não fazia a barba se não estivesse a fim; muitas
vezes fui com a roupa que estava em casa. A responsabilidade é muito menor
porque o alcance é muito menor. Na tevê, além de ter que pensar na sua imagem,
tem a coisa da câmera, que você demora um pouquinho para ficar à vontade. Mas,
principalmente, a coisa da responsabilidade. Tem que pensar muito bem no que
você vai falar, porque o alcance é muito grande. A repercussão de tudo aqui na
Globo é muito grande, para o bem e para o mal. Então a gente tem que tomar
muito cuidado.
No rádio eu ia trabalhar de chinelo, bermuda. Não fazia a barba
se não estivesse a fim. Na tevê tem que pensar muito bem no que você vai falar,
porque o alcance é muito grande. Então a gente tem que tomar muito cuidado.
Como
você lida com as críticas?
Alex
Escobar: Mal!
(risos). Admito que eu sou meio fraco para crítica. Se a crítica é feroz, como
no Twitter, eu não tô nem aí. Porque eu sei que o cara está fazendo para me
agredir, então não dou bola. Mas, quando eu percebo que tem um fundamento fico
bem triste. Não fico com raiva, não, fico triste. Frouxo, né, cara? Não gosto
de errar.
Como
foi sua experiência com Copa do Mundo?
Alex
Escobar: Copa do
Mundo pra mim é Disneylândia. Trabalha-se muito porque você não manda para uma
Copa do Mundo a quantidade de pessoas ideal para fazer todos os programas,
então quem vai faz tudo, rala muito. Mas, ao mesmo tempo, é um sonho. Porque, como
eu disse, me interesso por futebol desde muito cedo, desde muito menino. Então,
primeira Copa foi em 2006, eu fui como comentarista pelo SporTV. Foi o máximo
porque eu comentei o jogo de abertura e a final também. Fora outros jogos.
Rodei pela Alemanha lá, foi maravilhoso. Foi quando eu vi que, finalmente,
tinha ido de Bangu para o mundo. Depois,
em 2010, na África do Sul, eu já fui pelo “Bom Dia Brasil”, pela Globo. Foi
mais chato, porque eu não participei dos jogos, não estava mais comentando
jogo, nem narrando. E 2014, agora no Brasil, foi muito maneiro porque eu
comecei a narrar no início de 2014, narrei sete jogos na Copa e foi o máximo.
Desculpa quem não gosta, mas pra mim foi o máximo! Voltando à questão da
crítica: com a narração voltei vinte casas. Porque como apresentador eu sou
pouco contestado, muito pouco. Como narrador eu sou muito contestado. (risos)

Admito que eu sou meio fraco para crítica. Se a crítica é
feroz, como no Twitter, eu não tô nem aí. Mas, quando eu percebo que tem um
fundamento fico bem triste. Não fico com raiva, não, fico triste. Frouxo, né,
cara? Não gosto de errar.
Qual foi o programa mais difícil e o
mais gratificante de ter feito?
Alex
Escobar: Ah, o
difícil foi esse avião da Chapecoense, que tinha entre os mortos um amigo aqui
da redação, o Guilherme Van Der Laars. Ele ficou sabendo que a mulher estava
grávida do terceiro filho agora em junho, eu estava junto quando ele soube. Era
um cara com quem eu convivia, me amarrava, foi duro falar da morte dele. Talvez
o que tenha me deixado mais feliz tenha sido narrar uma Copa do mundo, aquilo
foi sonho de criança. Eu narrava futebol de botão, vídeo game e estava narrando
um jogo de Copa do Mundo, na Globo, não teve nada mais gratificante do que
isso.
Como
é sua rotina aqui?
Alex
Escobar: Escrevo
muito pouco, muito pouco. Porque eu não saberia escrever como eles (equipe do
Globo Esporte) escrevem, essa que é a grande verdade. É uma equipe montada cada
um na sua. Tem os que escrevem pra caramba, nossos editores de imagem são muito
bons, esses caras são de cinema. Eu tenho mais prazer em pegar o texto e deixar
ele do meu jeito, não tenho texto no TP
(Teleprompter, aparelho onde os
apresentadores leem os textos durante os programas). Eu coloco uns tópicos e
vou falando. Porque se você domina, o TP
às vezes atrapalha mais do que outra coisa, então coloca no TP o que você não pode esquecer de falar
e fala do teu jeito. Fica muito mais natural.
Então você vem pra cá e só grava o
programa?
Alex
Escobar: Eu chego
oito da manhã, oito e meia, porque a edição da imagem de alguns textos é muito
demorada, então eu preciso estar aqui cedo pra gravar e dar tempo de gravar
para o programa. Basicamente fico gravando off
(áudio de fundo das reportagens) e me inteirando das coisas que estão
acontecendo no dia. Às vezes, faço uma ligação ou estudo pela internet mesmo,
porque justamente por eu não ler no TP
eu preciso ter o programa na minha mão, preciso saber de tudo que eu estou
falando ali, então eu me preparo pra isso.
Às vezes, as pessoas confundem que para ser apresentador tem
que fazer graça, não é isso. Tem que ser você. A pessoa que está vendo em casa
tem que ver assim e achar que é ele que tá ali, não um personagem.
Você
lembra da sua primeira entrevista?
Alex
Escobar: Putz,
entrevista não. Eu lembro da primeira aparição na televisão que foi comentando
um jogo, Figueirense e Fluminense, lá no campo do América, e eu sou América,
olha que coincidência. Em casa, né.
Entre os jornalistas, quem você mais
admira, quem você mais se espelha?
Alex
Escobar: Ah,
algumas pessoas. Eu acho o Tiago (Leifert) muito bom, Tadeu Schmidt eu acho
incrível como ele fica à vontade no ar, parece que está em casa, uma
naturalidade. Tadeu foi o primeiro aqui a não usar o texto no TP, aí o Tiago começou a fazer no Globo
Esporte em São Paulo e eu aqui. Às
vezes, as pessoas confundem que para ser apresentador tem que fazer graça, não
é isso. Tem que ser você. A pessoa que está vendo em casa tem que ver assim e
achar que é ele que tá ali, não um personagem. O caminho é esse, naturalidade,
a palavra-chave é essa, tem que ser natural.
Como
é a sensação de olhar para trás e ver tudo que você percorreu até agora?
Alex
Escobar: É
incrível! Se você me perguntar: “Qual é o teu sonho?”. Pô, nenhum. Não tenho
mais sonho para sonhar. Meu sonho talvez seja ficar aqui (na Globo) enquanto
tiver saúde e eles me derem um cantinho. É muito bom estar aqui, acho que o
fato de não fazer planos tem me ajudado, porque isso diminui a ansiedade. Se eu
posso dar uma dica para vocês é: não façam planos!